segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

QUE VENHA 2013 !!!

Não podemos esquecer de Drummond...

RECEITA PARA UM ANO NOVO...

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Que 2013 seja um ano de renovação e paz.
Beijos no coração,
Regina Karla

domingo, 9 de dezembro de 2012

COMPANHEIRO NIEMEYER SE FOI...



"A vida é importante; a Arquitetura não é. Até é bom saber das coisas da cultura, da pintura, da arte. Mas não é essencial. Essencial é o bom comportamento do homem diante da vida."
Oscar Niemeyer

domingo, 25 de novembro de 2012

UM MILITANTE DA BELEZA







A homenagem ao poeta e escritor  Bartolomeu Campos de Queirós, auto-declarado um militante da beleza- na FLIP 2012, foi bela como sua trajetória de vida. Uma mesa composta por suas amigas, admiradoras e companheiras de idéias, organizada pelo MBL na FLIP 2012, emocionou a platéia. Nilma Lacerda, escritora premiada e professora da Universidade Federal Fluminense, Ninfa Parreiras, psicanalista, escritora e pesquisadora do Centro Educacional Anísio Teixeira, e Elizabeth Serra, Secretária Geral da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil leram trechos de livros do poeta, falecido em janeiro deste ano, bem como recordaram suas idéias mais relevantes sobre a importância da literatura e seu comprometimento com a criação de um país com mais leitores.

Militante também da justiça e da simplicidade, Bartolomeu contribuiu não só para a literatura, mas para as políticas públicas da leitura e pela disseminação de valores como solidariedade. Ninfa recordou um episódio emblemático da trajetória profissional de Bartolomeu.  Quando ele foi nomeado presidente do Palácio das Artes , em Belo Horizonte,  institui uma prática nada convencional: o horário do banho dos meninos de rua no chafariz do Palácio. O que antes era reprimido pela segurança local virou um direito. Ele fornecia sabão e xampu às crianças, que enfrentavam a água gelada.  Para aquecer o corpo depois, servia um lanche de café com leite. Por essa iniciativa, ele ganhou o Prêmio Gentileza Urbana e tinha muito orgulho desse prêmio. Nilma Lacerda, com a graça que lhe é característica, leu uma carta escrita por ela a Bartolomeu, em que traçava intertextualidade com Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector, e relatava a experiência do nascimento de um novo leitor. Elizabeth Serra ressaltou a importância decisiva que Bartolomeu exerceu em sua trajetória profissional, e relembrou um encontro antológico entre ele, e Ana Maria Machado, na FLIP 2011, em mesa promovida pelo MBL. Foi  a última participação pública do poeta.

Bartolomeu também foi homenageado em um evento OFF Flip, que ocorreu na casa SESC, em Paraty. Áurea Alencar, secretária executiva do MBL recordou como Bartolomeu foi uma figura chave para disseminação do Movimento e para o engajamento do brasileiros por uma sociedade leitora. “Tecendo o fio da palavra nasceu o Manifesto, fruto da provocadora inquietude de Bartolomeu. Passamos a sonhar com ele o sonho de um país mais justo, reconhecendo a literatura como um direito de todos que ainda não está escrito. Passamos ao ato e nasceu o Movimento por um Brasil literário, perseguindo a efetivação desse direito. Às minhas inquietações sobre o percurso do Movimento por um Brasil Literário tinha ele sempre as devidas palavras que me acalmavam e eu as tenho de cor, de coração: o Movimento é como uma onda no mar que vai e volta ou mais, toda mudança que se quer profunda é lenta, dentre outros afagos”, disse Áurea.

A Revista do SESC  realizou uma edição inteiramente dedicada a Bartolomeu. A escritora e professora Ruth Silviano Brandão escreveu: “O tempo de Bartolomeu é outro, diferente dos Teóricos. O dele corre, para, muda e mantém as coisas, mesmo que elas brotem e murchem, de forma diferente nos homens, nos bichos, nas borboletas”.  Francisco Gregório Filho, um dos fundadores do PROLER e amigo de uma vida inteira de Bartolomeu disse: “Pelo Brasil afora tínhamos sempre a certeza do sucesso e da repercussão das palestras do Bartolomeu. Com sua fala mansa e pausada, aprofundava questões sobre educação e leitura, verdadeiros cursos sobre o exercício da cidadania, sublinhando de forma contundente a importância das políticas públicas que  dessem relevo à leitura. Voz necessária que permanecerá sempre com os que trabalham nessa área.”

As homenagens não tem fim. Seguirão acontecendo na agenda literária de 2012, em eventos de norte a sul do Brasil. Bartolomeu, mesmo apos seu falecimento, segue contribuindo para a criação de uma sociedade leitora e para o encantamento dos que já amam ler.



 http://www.brasilliterario.org.br/noticias/mostra_2010.php?id=150


sábado, 24 de novembro de 2012

MIA COUTO NO BRASIL


Mia Couto: a literatura como forma de ativismo

 13 DE NOVEMBRO DE 20


Em visita ao Brasil, escritor moçambicano fala para pequenas multidões em roteiro inédito — que incluiu saraus da periferia paulistana
Por João Novaes, no Opera Mundi
Amantes da poesia lotaram o Bar do Zé Batidão, na zona sul, para acompanhar a conversa com Mia Couto e o sarau da Cooperifa Sob a laje de um sobrado no Jardim São Luís, bairro de periferia na zona Sul de São Paulo, mais de cem pessoas se acomodavam para escutar atentamente e com confesso deslumbramento uma palestra informal do poeta, biólogo e jornalista moçambicano Mia Couto, autor de obras como “Terra Sonâmbula” (Cia. Das Letras, 1992 (1ª ed.), 208 pgs.), de passagem pelo Brasil para a divulgação de seu mais recente livro, “A Confissão da Leoa” (Cia das Letras, 2012, 256 pgs.).
Em meio aos populares do Bar do Zé Batidão, onde ainda participou de um sarau organizado pelo coletivo Cooperifa, na última quarta-feira (07/11), Mia parecia mais à vontade do que no dia anterior, quando conversou amigavelmente com um público mais elitizado, em uma sala de cinema do Conjunto Nacional, localizado nos Jardins, bairro ‘nobre’ da zona oeste. Nas duas ocasiões, conversou com a reportagem deOpera Mundi.
O perfil pacato e conciliador do escritor não esconde uma vida marcada pela militância, que começou nos anos 1970, quando participou da luta pela independência de Moçambique, quando se juntou à Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique). Hoje, desencantado, não participa mais da vida político-partidária do país (promete nunca mais voltar a se envolver com partidos), mas o ativismo está presente em suas atividades como jornalista, biólogo (dirige uma empresa de estudos sobre impactos ambientais) e, sem dúvida, em suas obras.
Mia Couto dialoga com o público da Cooperifa
Ativismo político “Política é um assunto tão sério que não pode ser deixado só nas mãos dos políticos. Temos de reinventar uma maneira de fazer política, porque isso afeta a nós todos. Faço isso pela via da escrita, da literatura, já que me mantenho jornalista e colaboro com jornais. Também faço intervenções como visitar bairros pobres onde as pessoas não recebem meu tipo de mensagem. Essa é a minha militância”, explica. Atualmente, afirma manter uma distância crítica do governo, controlado pela Frelimo desde a independência, em 1975. Para ele, a proximidade entre o discurso e a prática do partido se distanciaram, mas afirma não haver ressentimento ou sensação de traição, pois considera que esse fenômeno se reproduz em todo o mundo. Ao contrário, se diz grato por seu tempo de militância partidária. “Fazer política hoje exige grande criatividade, temos de saltar fora de modelos, mas o modelo de fazer política faliu. Em todo o lado do mundo. Então é preciso reinventar, ter imaginação. Para ter imaginação é preciso sair fora dos padrões que vemos”.
Nascido António Emílio Leite Couto, filho de um casal de portugueses que já viviam há muitos anos no país africano, Mia cresceu em uma casa colonial na Beira, terceira maior cidade de Moçambique, em um meio rural e próximo do ambiente místico encontrado em algumas de suas histórias.
Na juventude, já morando em Maputo (na época colonial chamada de Lourenço Marques) e começando a ganhar destaque por seus poemas, decidiu estudar medicina. Por diretrizes da luta revolucionária, foi escalado como jornalista na Tribuna, publicando matérias favoráveis à independência – até o jornal ter sido incendiado por colonos portugueses. Lembra que nunca pegou em armas durante a luta pela independência, pois, embora os brancos fossem bem-vindos no movimento, não eram autorizados a atuar como guerrilheiros, mas no serviço clandestino.
Em suas histórias de luta pela independência, Mia lembra de como se alistou clandestinamente na Frelimo. “Havia na época um ritual chamado ‘confissão de sofrimento’, onde cada pessoa para ser aceita contava sua história de vida e todos os fatos que o colonialismo os fez sofrer. Ouvi cada história e me assustava, porque não tinha sofrido tanto quanto eles. Temia que teria de inventar uma história muito sofrida para ser aceito. Quando chegou minha vez de falar, me perguntaram: ‘É você que escreve poesias?’ e respondi que sim. Daí me disseram: ‘Então tudo bem, você pode entrar’”, conta, sempre provocando risos.
Atuação ambiental Sobre seu trabalho com estudos de impacto ambiental, Mia é mais um entre os muitos ativistas moçambicanos a relatar a dificuldade para se encontrar um equilíbrio entre o ativismo nessa área e a agenda desenvolvimentista. Perguntado sobre os problemas que as grandes obras, principalmente relacionadas à mineração, têm causado às populações e ao meio ambiente, ele afirma que o principal problema se encontra na aplicação das leis.
“Moçambique tem uma grande fragilidade institucional que é seguir o que está na lei. O país tem leis, mas não a capacidade para acompanhamento e controle. Isso tem de ser resolvido. Por outro lado, é preciso prestar atenção, pois Moçambique está em uma armadilha grande: entre ficar como está e aceitar aquilo que vem [de fora], o que nem sempre é o melhor. O país lutou muito para atrair investimentos, para que sua imagem criasse simpatia com o grande capital. (…) Deve-se lembrar que a miséria também é um problema ambiental. [Não se pode] deixar os países como Moçambique como estão, como se estivessem bem, quando na verdade eles não estão [Mia criticou em outras ocasiões, assim como  neste caso, a corrente que defende que a África deveria permanecer um ‘continente selvagem’]. A miséria gera problemas enormes em Moçambique, tão insustentáveis quanto aos atribuídos à indústria, que muitas vezes é cega”. Para ele, o meio termo deste conflito só pode ser alcançado com o diálogo.
Engajamento poético Entre tantos trabalhos e engajamentos, Mia considera que sua atividade mais importante é dar conselhos e orientações aos jovens moçambicanos que o procuram e manifestam seu desejo de se tornarem poetas. “A condição para o poeta não é que ele escreva bem, mas que tenha uma história a ser contada. A falta de domínio da técnica não deve ser um impedimento para continuar, não deve ser a morte do sonho”, afirma, lamentando que um dos locais onde mais se procure desencorajar essa iniciativa sejam justamente as escolas.
Foi muito aplaudido quando disse essa frase na Cooperifa, já que estava cercado de um público que, por muitas vezes, vê o seu direito a produção intelectual ser alvo de preconceito. “Acredita-se que a periferia pode dar jogador, cantor, dançarino, mas poeta? No sentido de que o poeta não produz só uma arte, mas pensamento…Acho que o grande racismo, a grande maneira de excluir o outro, é dizer que o outro pode produzir o que quiser, até o bonito, mas pensamento próprio, não. E vi aqui que havia um pensamento que está muito vivo e está fazendo acontecer coisas”

sábado, 10 de novembro de 2012

PERECÍVEL, mas indestrutível



Publicado : Folha de S.Paulo, 10/11/2012

RIO DE JANEIRO - A loura madura, bonita e empetecada olhava com encanto para as prateleiras ao seu redor. Era num sebo -um charmoso sebo no Leblon. Ao lado, seu marido, uma personalidade da TV, conversava com alguns clientes. De repente, ouviu-se a voz da mulher: "Que livraria mais engraçada! Só tem livro velho!".
Sebos interferem com a sensibilidade de seus frequentadores.
Há quem se compadeça daqueles livros porque acha que, lidos ou não, eles foram desprezados por seus antigos compradores. Para outros, o sebo representa uma gloriosa sobrevida para muitos livros -quem sabe um dia estes não serão tirados das estantes por leitores mais atentos e interessados, que saberão apreciá-los melhor?
Sem falar em tantos livros tão amados, e que só foram parar no sebo por motivo de força maior, como a morte de seus possuidores originais. É comum que, morto o dono da casa, e pela impossibilidade de continuar morando nela, a viúva seja obrigada a se desfazer do recheio ou do próprio imóvel, donde lá se vão os livros. E não há nada demais em que a sobrevida de um livro se deva à morte de alguém. Boa parte dos livros que possuo já pertenceu a uma ou mais pessoas, e, no futuro, pertencerão a terceiros ou quartos -espero.
Uma notícia na Folha, há dias, me calou fundo: a história de Cleuza, 47, a catadora de recicláveis em Mirassol (452 km de São Paulo), que recolhe os livros que encontra no lixo, recupera-os e os leva para uma biblioteca que criou no centro de triagem do lugar. Entre os 300 títulos que já salvou da destruição e empresta ou dá a seus colegas, estão muitos de Machado de Assis, Érico Verissimo e José Saramago. Eu ficaria orgulhoso de ver algum dos meus próprios livros nesse lote.
Há melhor prova de que, por Cleuza, o livro -de papel, tão precário e perecível- será indestrutível?

 

 

RUY CASTRO

EDMIR PERROTTI: BIBLIOTECA NÃO É DEPÓSITO DE LIVROS



Idealizador de redes de leitura em escolas diz que é função do educador ajudar os estudantes a processar as informações do acervo

 Edmir Perrotti. Foto: Gustavo Lourenção

Desafios como a criação do hábito da leitura entre crianças e adolescentes, as novidades tecnológicas, a ampliação do acesso ao ensino e a sofisticação do mercado editorial levaram o professor Edmir Perrotti a uma nova concepção de biblioteca escolar e de seu papel pedagógico.

Com formação em Biblioteconomia - área que combinou com seu interesse em Educação -, ele é docente da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, conselheiro do Ministério da Educação para a política de formação de leitores e autor de livros infantis.

Perrotti, orientou a implantação de redes de bibliotecas inovadoras nas escolas municipais de São Bernardo do Campo, Diadema e Jaguariúna, no estado de São Paulo. Nessas estações de conhecimento, como ele prefere chamá-las, a aprendizagem é estimulada pela presença de suportes tecnológicos, como o computador e a televisão.

Em um ambiente que convida as crianças a descobrir e aprofundar o prazer da leitura, os livros convivem com outras linguagens, como a do teatro. "Assim trabalha-se o contato com as informações e também o processamento delas", diz. Ex-professor da Universidade de Bordeaux, na França, e de escolas de Ensino Fundamental no Brasil, além de editor e crítico literário, Perrotti concedeu a seguinte entrevista a NOVA ESCOLA.

O que deve orientar a constituição de uma biblioteca escolar?
 Perrotti: Ela não pode restringir-se a um papel meramente didático-pedagógico, ou seja, o de dar apoio para o programa dos professores. Há um eixo educativo que a biblioteca tem de seguir, mas sua configuração deve extrapolar esse limite, porque o eixo cultural é igualmente essencial. Isso significa trazer autores para conversar, discutir livros, formar círculos de leitores, reunir grupos de crianças interessadas num personagem, num autor ou num tema. A biblioteca funciona como uma ponte entre o ambiente escolar e o mundo externo.

De que modo se realiza essa abertura para fora da escola?
Perrotti: O responsável pela biblioteca tem o papel de articular programas com a biblioteca pública e fazer contato com a livraria mais próxima, além de estar atento à programação cultural da cidade. Há uma série de estratégias possíveis para inserir a criança num contexto letrado. A biblioteca precisa ter outra finalidade que não seja simplesmente a de um depósito de onde se retiram livros que depois são devolvidos. Nós não trabalhamos mais com a idéia de unidades isoladas. O ideal é formar redes, um conjunto de espaços que eu chamo de estações de conhecimento, cujo objetivo é a apropriação do saber pelas crianças.

Qual é a necessidade das redes?
Perrotti: Com o atual excesso de informações e a multiplicação de suportes, nenhuma biblioteca dá conta de todas as áreas em profundidade, até porque não haveria recursos para isso. O trabalho tem de ser compartilhado com outras unidades da rede, por meio de mecanismos de busca informatizados. Por exemplo: a escola guarda um pequeno acervo inicial sobre arte, mas, se o interesse for por um conhecimento aprofundado, recorre-se a uma biblioteca especializada na área. Hoje não há mais condições de manter o antigo ideal de bibliotecas enciclopédicas, que abarcavam todas as áreas de conhecimento.

Quem deve ser o responsável pela biblioteca?
Perrotti: Processar as informações e criar nexos entre elas é um ato educativo. O responsável, portanto, é um educador para a informação, que nós chamamos de infoeducador, um professor com especialização em processos documentais. Uma rede de bibliotecas tem uma plataforma de apoio técnico-especializado, que é a área do bibliotecário, um especialista em planejamento e organização da informação. Junto com ele trabalham os educadores, que são especialistas em processos de mediação de informação. Dar acesso ao acervo não basta para que o aluno saiba selecionar e processar informações e estabelecer vínculos entre elas.

De que modo se estimula a autonomia numa biblioteca?
Perrotti: É preciso desenvolver programas para construir competências informacionais. Isso inclui desde ensinar a folhear um livro para crianças bem pequenas até manejar um computador. Antigamente imperava a idéia de que os adultos é que deveriam mexer nas máquinas e pegar os livros na estante. Hoje deve-se formar pessoas que tenham uma atitude desenvolvida, não só de curiosidade intelectual mas de domínio dos recursos de informação. Essa é uma questão essencial da nossa época.

Por que a escola tem falhado em ensinar os alunos a processar informações?
Perrotti: Porque se acredita que basta escolarizar as crianças para formar leitores. De fato, a escola tem o papel de construir competências fundamentais para a leitura, mas isso não quer dizer formar atitude leitora. Hoje, o que distingue o leitor das elites do leitor das massas é que o primeiro tem um circuito de trocas. Ele participa do comércio simbólico da escrita, da produção à recepção: sabe o que é publicado, informa-se sobre os autores, encontra outros leitores etc. Já a criança da escola pública muitas vezes não tem livros em casa e só lê o que o professor pede. Ela não tem com quem comentar. Está sozinha nesse comércio das trocas simbólicas.

Qual é o mínimo necessário para o funcionamento de uma biblioteca escolar?
Perrotti: Estou convencido de que é a pessoa que trabalha ali, mediando relações entre a criança, a informação e o espaço. Não precisa ser alguém super especializado, mas que compreenda a função da escrita e da imagem e que saiba qual é a importância daquilo na vida das pessoas. Assim, a compra de livros seguirá um critério de escolha consciente. É claro que é bom construir um ambiente agradável e funcional, mas não é indispensável, porque a leitura não depende das instalações da biblioteca; ela se dá em qualquer lugar.

Quem deve escolher o acervo?
Perrotti: Nós temos trabalhado um modelo em que a escolha é feita por todos os que participam dos processos de aprendizagem: professores, coordenadores, diretores e alunos. Formulários são colocados à disposição para que sejam feitas sugestões de compra. O infoeducador não só coleta esses dados como divulga, por meio dos quadros de aviso, as informações sobre lançamentos que saem na imprensa e na internet. Depois, ele vai analisar os pedidos, separá-los em categorias livros importantes para os projetos em andamento, leituras de informação geral ou complementares etc. e, com base nessas listas, a escolha é feita de acordo com os recursos disponíveis.

Como comprometer o aluno com a organização e a manutenção da biblioteca?
Perrotti: Ele participa da escolha do acervo e também pode estar pessoalmente representado nele, por meio de livros que ele escreve e de documentos de sua passagem pela escola. Uma parte do acervo vem da indústria cultural e outra é produzida internamente, com documentos e relatos referentes à história da instituição. Formar um repertório de dados locais cria relações com as informações universais.

Descreva a biblioteca escolar ideal.
Perrotti: É aquela que possui todo tipo de recurso informacional, do papel ao equipamento eletrônico. O espaço é construído especialmente para sua finalidade e de acordo com quem vai usar. Se o público majoritário é infantil, a disposição dos móveis e do acervo deve permitir que a criança se mova com autonomia. É preciso ser um local acolhedor, mas que empurre rumo à aventura, porque conhecer é sempre se deslocar.

Por que se diz que os jovens não gostam de ler?
Perrotti: Os interesses mudam na passagem da infância para a adolescência e a leitura que era feita antes já não interessa tanto, mesmo porque cresce a concorrência de outras mídias. Essa é uma transição crítica e ainda não foram definidas ações específicas para promover a leitura nessa faixa etária. Os adolescentes identificam o livro com as tarefas da escola, que reforça essa percepção porque raramente sai da abordagem instrumental da leitura. E no âmbito social, entre os amigos, a leitura não está presente. Mesmo assim, essa fase é a das grandes paixões. Portanto, há um espaço enorme para promover a leitura entre os jovens.

É possível formar leitores por meio de políticas públicas?
Perrotti: O problema é saber que caráter elas têm. Eu não concordo com estratégias que pretendam ensinar os alunos a gostar de ler. A função do poder público é criar ambientes que dêem condições de ler, tentar despertar as crianças para as potencialidades da escrita, prepará-las para as competências leitoras enfim, providenciar para que seja constituída a trama que sustenta o ato de ler. Mas gostar de ler é questão de foro íntimo, não de políticas públicas.

A escola deve obrigar um aluno a ler livros e freqüentar bibliotecas mesmo que ele não goste?
Perrotti: Não se pode deixar de perguntar por que esse aluno não gosta de ler. Ele teve uma relação negativa com a situação de aprendizagem? Ninguém lê em casa? Tem dificuldades de visão? Não domina o código? Não tem circuitos culturais a sua volta? Tudo isso pode e deve ser trabalhado. Agora, se ele teve apoio para experimentar a prática da leitura e prefere fazer outras coisas, não adianta forçar. É claro que não estou falando da leitura funcional, indispensável para a vida diária. Nesse caso, é obrigatório negociar com a criança o "não querer ler".

É melhor ler literatura de má qualidade do que não ler nada?
Perrotti: A pergunta já supõe que de fato existe uma literatura de má qualidade. Há leitores que são capazes de voar longe com um suposto mau livro, assim como há muitos trabalhos escolares que se utilizam de grandes textos, mas sufocam o interesse de aprender. Por outro lado, não é possível deixar o gosto do leitor imperar sozinho. É fundamental operar mediações entre as crianças e uma literatura que tenha condições de produzir significações importantes.

O uso do livro em sala de aula está em decadência?
Perrotti: Ele está aquém do que gostaríamos que fosse e também do que seria necessário. Mesmo assim, o livro está entrando nas escolas numa medida que não entrava, nem que seja por meio das distribuições feitas pelo Ministério da Educação e as secretarias estaduais e municipais. Há 50 anos nem sequer se sonhava com isso no Brasil. O problema maior é o de mau uso desses livros, com estratégias impositivas de leitura. Muitas vezes falta penetrar no avesso dos textos com as crianças e realmente mergulhar numa viagem de conhecimento, de imaginação.

Até que ponto as bibliotecas levam ao hábito da leitura?
Perrotti: Eu participei de uma pesquisa feita com as crianças usuárias das redes de biblioteca que ajudei a implantar no estado de São Paulo. Queríamos saber se elas estão incorporando a leitura a sua prática de vida e não apenas como lição de casa. Qual é a constatação? Houve um grande avanço e as crianças se mostram muito mais familiarizadas com os livros, mas infelizmente ainda não usam as novas competências para trocas culturais. Por exemplo: não têm o hábito de comprar e emprestar livros. A prática escolar não se transferiu para a prática cultural.

Há perspectiva de mudança para essa situação?
Perrotti: Eu vejo uma tendência de funcionalização. Os meios eletrônicos trouxeram, aparentemente, uma presença maior da escrita, mas o uso que se faz dela é cada vez mais abreviado. Vai-se transformando a língua no elemento mínimo para a transmissão da mensagem. Nós estamos a anos-luz de formar pessoas que, ao cabo do período de escolaridade, vão se relacionar com a escrita como uma ferramenta de conhecimento e de experiências estéticas, numa dimensão não pragmática. Restringir as ferramentas de linguagem a sua função utilitária é retirar de nós mesmos aquilo que nos humaniza a capacidade de dizer de uma forma articulada. As novas bibliotecas têm de enfrentar essa questão.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

A SALA DE LEITURA PRESENTE NA FEIRA DE POA! Um dia maravilhoso, que anuncia como serão os demais! Chegamos ontem, aliás, hoje, pois já passava da meia noite. Hoje fomos 4 professoras de Sala de Leitura: Mary Inêz, da Polo Leonel Azevedo; Ana Lúcia, do GEC Anísio Teixeira; Eu, da Gurgel do Amaral e Fátima Campilho da Leonor; todas da 4 CRE. Comecamos nossa participação no Traçando histórias, com oficinas de ilustração com Maurício Negro. Em seguida corremos para pegar oficina com Marília Pirilo. Depois partimos para oficina de ilustração com Rosinha - já está convidada para ir ao nosso Polo (Leonel Azevedo, na 4 CRE) No fim da tarde, mesa redonda com Janaína Tokitaka, Maurício Negro, Nelson Cruz e Rosinha Campos, e mediação de Glaucia de Souza. Saímos correndo para pegar A poesia na feira, com Marina Colasanti, Affonso Romano de Sant Ànna e Alice Ruiz, mediação de Ruy Carlos Osterman, que nos brindaram com vários poemas e seus deliosos comentários. No dia do aniversário de Drummond, o dia tinha mesmo que terminar em poesia! Amanhã tem mais, e nosso grupo aumenta consideravelmente. Chegam hoje, Kátia Daim (7 CRE), acompanhada de uma colega, Marta, do GEC Rivadávia Correia, e Ines Rocha, do GEC Mario Paulo de Brito. Feliz demais com o investimento que fizemos em nossa formação, com sacrifício, mas de valor incalculável. Amanhã eu volto Elizabeth Caldas, regente de Sala de Lweitura da E. M. Gurgel do Amaral

sábado, 27 de outubro de 2012

A SUBSTÂNCIA OCULTA DOS CONTOS O ENSINO DE LITERATURA NA ESCOLA

Esta é a contribuição da Profª Ana Lúcia do Ginásio Carioca Anísio Teixeira
POR Yolanda Reyes
yolanda reyesYolanda Reyes nasceu na Colômbia, é educadora, fundadora e diretora do Instituto Espantapájaros, em Bogotá – um projeto cultural de formação de leitores, dirigido não apenas as crianças, mas também a mediadores e adultos. Especialista em fomento à leitura, consultora, autora de artigos e livros sobre o tema da leitura, é autora de A casa imaginária: leitura e literatura na primeira infância (Global, 2010). É colunista do diário El Tiempo, de Bogotá e também se destaca pela sua obra literária para crianças e jovens. Dentre seus livros publicados no Brasil, destacamos É terminantemente proibido, A pior hora do dia, Saber perder e Terça-feira: 5ª aula (FTD) e Um conto que não é reconto (Mercuryo Jovem).

1. O fio da memória
Faz muito, mas muito tempo mesmo, muito tempo antes de aprender a ler sozinhos, que talvez uma voz amada tenha nos contado algum desses contos tradicionais que costumam ser contados às crianças e que resolvemos agrupar sob o rótulo “contos de fadas” ou “contos tradicionais”.
Deveríamos seguir o fio da memória para evocar esse rosto, esse tom de voz, essas mãos que iam desenhando reinos e palácios longínquos, para construir uma arquitetura que não existia então e que, contudo, era mais real que todo o resto: mais real que os cantos dessa cama que já esquecemos; mais real que o quarto ou o quintal ou aquela noite daqueles tempos... mais real que nossos rostos de então, que as tranças ou os rabos de cavalo ou o gel que já não usamos há anos...
E agora, quando já esquecemos o rosto que tivemos, a idade exata e o vestido, talvez, continuemos nos lembrando de algum pedaço da história, de alguma fórmula mágica do começo, de algumas palavras que se repetiam como um refrão e que nomeavam tudo aquilo de que não se falava durante o resto das horas, tudo aquilo que não se dizia para as visitas, na mesa, nem na fila do colégio...
Eis a substância oculta dos contos: esse poder das palavras para dar nome e sentido às realidades interiores, tantas vezes terríveis e incertas, apesar da suposta inocência que os adultos atribuem aos tempos da infância.
Branca de Neve
Branca de Neve, por Anne Anderson (1874-1930)

O primeiro conto de que me lembro, talvez o mais triste dos contos que conheço, mais que um conto uma ladainha que indagava, como no fundo a literatura sempre faz, sobre os mistérios da vida, com dois de seus dramas decorrentes: o amor e a morte. Era a história da Cucarachita Martínez [A baratinha Martínez] contada muitas noites, por minha avó, sempre na mesma hora. Caso não conheçam o conto, a baratinha, varre que varre a porta de sua casa, encontrava uma moeda, e com ela, comprava uma fita para o cabelo. E, assim, tão linda, sentava-se na mesma porta e esperava que alguém se apaixonasse. Passavam o cachorro, o gato e outros animais, e todos lhe diziam a mesma coisa: “Baratinha, como você está bonita. De coração, te peço: quer casar comigo?”. Ela, como é costume nos contos tradicionais, respondia: “Depende: o que vai fazer para me conquistar?”.
O cachorro dizia “au, au”, o gato, “miau” e ela perguntava, invariavelmente: “Ah, não!, segue seu caminho, porque me você me assusta, me espanta, me assombra”. Até que chegava o Rato Perez e, quando ela dizia “depende: o que vai fazer para me conquistar?”, o rato respondia sussurrando suavemente: “bsbsbs”, e ela ficava fascinada. Imediatamente se casavam, mas a história não tinha final feliz, porque dias depois do casamento, a baratinha deixava o rato preparar um cozido e o pobre se afogava no caldeirão.
De repente tudo ficava muito triste. A baratinha chorava e um passarinho que passava lhe perguntava por que ela estava tão triste. Ela respondia: “Porque o rato Perez caiu no caldeirão e a baratinha está muito triste, por isso chora”... então, o passarinho se unia a ela e dizia: “pois eu passarinho corto meu biquinho”... então,  passava a pomba passava e perguntava ao passarinho por que tinha cortado o biquinho  e a ladainha recomeçava: “porque o rato caiu na panela e a baratinha sente muito e chora, por isso o passarinho corto o biquinho”. E a pomba dizia: “pois eu, pomba, corto minha cauda”... e quando chegava o pombal e perguntava a mesma coisa, depois da resposta, dizia: “pois eu pombal vou parar de voar”, e se somava ao coro e a ladainha ficava cada vez mais comprida e apareciam novos personagens que repetiam uma e outra vez a mesma ladainha:
Porque o rato Perez caiu na panela e a Baratinha sente e chora e o passarinho cortou seu biquinho, e a pomba cortou a cauda e que o pombal parou de voar e a fonte clara se pôs a chorar. E eu, que conto esse conto, acabo lamentando porque o rato Perez caiu no caldeirão e a baratinha...
E, assim, sucessivamente, a dor ia se apoderando de tudo e as palavras eram tristes, mas de tanto se repetirem, pareciam ter poderes de cura... Obviamente, penso isso agora, porque então eu não sabia o que estava por trás das palavras do que minha avó contava. Talvez nem ela soubesse: simplesmente, éramos duas pessoas muito próximas, corpo a corpo, cara a cara, falando sem falar todas as noites, dos mistérios da vida, da morte e do amor.
Creio que disso, exatamente, trata a literatura. E creio que os leitores de qualquer idade, quando nos refugiamos na cadeia de palavras de um livro, continuamos procurando essa possibilidade, muitas vezes descoberta do lado das primeiras vozes e dessas primeiras histórias inscritas em nós, de nomear, em um idioma secreto, em um Idioma Outro, aqueles mistérios essenciais que nunca conseguimos entender: a vida e a morte... e o que há no meio.

2. O lugar da literatura
Se aceitamos que sabemos, desde esses tempos remotos de palácios e vozes antigas, que a matéria da literatura é precisamente a vida – e a morte e o que há no meio – caberia perguntar por que continua tão vigente em nossas práticas e em nossos currículos acadêmicos essa outra ideia, segundo a qual, o que se deve saber de literatura é tanto o que sobra e tão pouco o que basta: isto é, definições, atividades, rótulos... (“Dever antes que vida”, como disse algum ilustre. A letra morta primeiro e depois, quando já tenhamos aprendido bastante, talvez o prazer..). Mas o problema é que “depois” pode ser demasiado tarde. A literatura ensinada assim, com suas listas de autores e de obras ou como estratégias e padrões de decodificação, não dá segunda chance.
De onde terá surgido esse consenso escolar que nos obriga a todos a sublinhar o mesmo no mesmo parágrafo no conto da “Chapeuzinho Vermelho”, a entender rapidamente as mesmas ideias principais de “Barba Azul” e a ver todas as obras dos mesmos pontos de vista? De onde surgiu esse desprezo da educação pelo subjetivo, pelo inefável, pelo que não pode ser avaliado em uma prova acadêmica?
A princesa e o Sapo
A princesa e o sapo, por Anne Anderson (1874-1930)

Atrevo-me a pensar que há um pouco de vaidade nesse equívoco. Porque, em nossa concepção de ensino, ainda se pede ao professor que seja capaz de controlar, planejar e avaliar o processo de aprendizagem durante todas as etapas, do começo ao fim, sem que nada lhe escape das mãos. Essa concepção supõe que quanto mais a curto prazo são os objetivos a que se propõe um professor e quanto mais se materializem os indicadores concretos, mais fáceis serão vistos, comprovados e avaliados em termos quantitativos. De alguma maneira, sua “eficácia” está ainda baseada em função de quanto consegue demonstrar do aprendizado que seus alunos conseguiram obter. O que não é visível, avaliável e observável não dá pontos. O que sai da resposta esperada não vale. O que acontece fora da sala de aula não conta. Os processos que são concluídos depois do ano acabar ou as revelações que ocorrem paulatinamente a um ser humano, ao longo de sua vida, talvez graças à voz de um professor que conta histórias sem esperar em troca nada mais que caras atentas, fascinadas ou aterradas, não se qualificam. E o que não se pode avaliar a curto prazo, é como se não existisse.
Se já esboçamos que a literatura trabalha com toda a experiência vital dos seres humanos – e não só com o pedacinho que se pode medir – podemos imaginar o pouco que esses contos e essas vozes representaram para sistemas pedagógicos calcados em perguntas fechadas de múltipla escolha ou em ideias meramente instrumentais que insistem em falar de leitura rápida, como se fosse uma competição acadêmica ou esportiva... no caso, o mesmo.

3. Casa de palavras
Detenhamo-nos a pensar um momento na essência da linguagem literária, localizando-a dentro do contexto mais amplo da comunicação humana. Cada um de nós possui uma língua determinada para expressar seu mundo interior e para se relacionar com os outros. Em nosso caso, pertencemos a uma comunidade lingüística que fala castelhano. O castelhano tem um código próprio, um sistema de signos que permite a todos os falantes nomear, com certos parâmetros, umas imagens mentais ou uns significados determinados. Isso garante que possamos compartir, de certa maneira, um mesmo código. De fato, se escrevo a palavra “casa”, posso ter a certeza de que todos que compartilham dessa língua evocam em sua mente o conceito de casa. Contudo, nenhuma das imagens mentais que se formam corresponde ao significado standard do dicionário. Haverá mansões, apartamentos ou casas de campo; algumas serão grandes e outras pequenas. Muitos irão mais longe e associarão a palavra a um cheiro particular, a certa sensação de segurança ou de proteção, a uma lembrança ou a seus próprios segredos. E isso acontece porque todos vivemos em casas diferentes.
Usemos essa imagem para mostrar nossa relação com a língua: cada um constrói sua própria casa de palavras. Temos um código comum, digamos, que são os materiais e as especificações básicas. Mas cada ser humano vai se apropriando do código através de suas próprias experiências vitais e forma seus significados, para além da definição de um dicionário, mediante uma trama complexa de relações e de histórias. Assim, afora os rótulos, a linguagem que habitamos oculta zonas privadas e pessoais. Junto às zonas iluminadas existem grandes zonas de penumbra.
Que significado tem isso tudo para o ensino da literatura? Pois nada menos que o reconhecimento dessas zonas. Dito de outro modo: não é o mesmo ler um manual de instruções para ligar um forno que ler um conto de fadas, e se a escola não se dá conta de “semelhante sutileza”, continuará ensinando a ler todos os textos desde uma mesma postura.
Para ligar um forno, deve-se seguir, de maneira literal e obediente, os passos indicados no manual, pois, do contrário pode-se provocar um curto-circuito. Contudo, é igualmente certo que, no caso dos contos, dos poemas e da literatura como um todo, são, precisamente a liberdade do leitor e, de certa forma, sua desobediência ao sentido literal das palavras, o que permite “compreender” toda sua dimensão. Embora para os dois tipos de leitura falemos em compreender, o tipo de compreensão que se estabelece é muito diferente. Para entender um conto, é necessário conectá-lo com sensações, emoções, ritmos interiores, evocações, como as que fizemos no começo, símbolos talvez arcaicos, zonas recônditas e secretas de nossa experiência. Se não nos permitimos explorar essas zonas secretas com suas penumbras e suas ambiguidades, esses contos não nos dirão nada, de modo que serão feitas perguntas como qual o tema do texto, quando nasceram seus autores, ou o que identificamos na introdução, no conflito e no desenlace...
Apesar dos dois tipos de leitura – o do manual de instruções e dos contos de fadas – compartilharem muitas palavras e signos, há algo neles que faz com que nós, como leitores, entremos em dinâmicas diferentes. E a escola, é importante esclarecer, deve ensinar a ler de todas as formas possíveis e com diversos propósitos. Porque precisamos seguir instruções cada vez mais complexas, não só para ligar fornos, como também para que uma nave possa decolar e explorar lugares distantes. Mas também necessitamos, e cada vez com mais urgência, explorar o fundo de nós mesmos e nos conectar, de lá, com esses outros, iguais ou diferentes, que compartilham nossas raízes humanas, nossos sonhos e nossos terrores. Assim como algumas vezes devemos ser obedientes ou literais e outras vezes precisamos analisar com exatidão textos científicos e acadêmicos – e não nego que isto também pode e deve ser ensinado – também é verdade que precisamos de ferramentas para fazer leituras livres e transgressoras, para conversar profundamente com nós mesmos e com essas outras vozes, nesse idioma secreto que fluía entre nós e nossos narradores privados, enquanto compartilhávamos um conto.
Por falar nesse Outro Idioma, e por nomear essas “casas próprias”, a literatura deve ser lida, vale dizer, sentida, a partir da própria vida. Aquele que escreve estreia as palavras e deve reinventá-las a cada vez, para imprimir sua marca pessoal. E o leitor de literatura recria esse processo de invenção para decifrar e decifrar-se na linguagem secreta do outro. Esse é um processo complexo que compromete, por assim dizer, dois sujeitos, com toda sua experiência, com toda sua história, com suas leituras prévias, com sua sensibilidade, com sua imaginação, com seu poder de se situar para além de si mesmo. Trata-se de uma experiência de leitura complexa e, é necessário dizer, difícil. Mas se pode ensinar. E sustento também que se pode ensinar a amar a literatura, assim como se ensinam e se aprendem números, vogais ou competências semânticas ou qualquer outra coisa. É possível ensinar a experiência essencial da literatura: ou seja, seu poder para revelarmos sentidos ocultos e secretos; para nos comover, nos assustar, nos abalar, nos nomear e nos fazer rir ou tremer, e para falar de tudo aquilo que não se diz para as visitas.
Cabe, então, promover uma pedagogia do amor à literatura que dê asas à imaginação de alunos, alunas e professores e ao livre exercício de sua sensibilidade, para impulsioná-los a ser re-criadores dos textos.

4. O que pode ensinar a literatura
Nossas crianças e jovens estão imersos em uma cultura de pressa e efervescência que os iguala a todos e os impede de refugiar-se, em algum momento do dia, e até mesmo de sua vida, no mais profundo de si mesmos. Daí que a experiência do texto literário e o encontro com esses livros reveladores que não se lêem somente com os olhos ou com a razão, mas com o coração e o desejo, sejam hoje mais necessários do que nunca como alternativas para ir construindo essas casas ou palácios interiores. Em meio a uma avalanche de mensagens e estímulos externos, a experiência literária brinda o leitor com umas coordenadas para nomear-se e ler-se nesses mundos simbólicos construídos por outros seres humanos. E, embora ler literatura não mude o mundo, pode sim torná-lo mais habitável, porque o fato de nos ver em perspectiva e de olhar para dentro, contribui para abrir novas portas para a sensibilidade e o entendimento de nós e dos outros.
Precisamos de poemas, contos e de toda literatura possível em nossas escolas, não para sublinhar ideias principais, mas para favorecer uma educação sentimental. Não para identificar morais, ensinamentos e valores, mas para empreender essa antiga tarefa do “conhece-te a ti mesmo” e “conhece aos demais”. O desafio fundamental de um professor é o de acompanhar seus alunos nessa tarefa, criando, ao mesmo tempo, um clima de introspecção e umas condições de diálogo, para que, em volta de cada texto, possam tecer-se as vozes, as experiências, as particularidades de cada criança, de cada jovem de carne e osso, com seu nome e com sua história.
Um professor de literatura, acima de tudo, é, como aqueles contadores referidos no início, uma voz que conta; uma mão que inventa palácios e arquitetura impossíveis, que abre portas proibidas e que traça caminhos entre a alma dos livros e a alma dos leitores. E para fazer seu trabalho, não deve esquecer que, antes de ser professor, é um ser humano, com zonas de luz e sombra; com uma vida secreta e uma casa de palavras que tem sua própria história. Seu trabalho, como a própria literatura, é risco e incertezas. Seu privilegiado ofício é, basicamente, ler. E seus textos de leitura não são os livros, mas também seus leitores. Não se trata de um ofício, mas de uma atitude de vida. Não figura no cânone, nem nos textos escolares, tampouco no manual de instruções, mas se pode ensinar. Tomara que esta ideia fique clara: que um professor pode “ensinar” o amor pela literatura mediante sua atitude frente a vida, que é o texto de seus alunos, por excelência. Quando saírem da escola e esquecerem datas e nomes, poderão lembrar da essência dessas conversas de vida tecidas entre linhas, quando seu professor pegava um livro de contos e dividia com eles a emoção de uma história, sem pedir-lhes nada em troca. Porque, no fundo, os livros são isso: conversações de vida. E sobre a vida, sim, é urgente aprender a conversar.
Lemos para conversar, e dizer e nos dizer, sem nunca entender nada totalmente. Como a Baratinha quando se refugiava sua ladainha, cada vez com mais vozes e esse ser nas palavras, esse fluir com as palavras de muitos outros, era como um feitiço que, de certa forma, curava a dor, mediante o rito de nomeá-lo.
Talvez o tempo, sempre tão apressado, apague nos estudantes os rostos de agora e as coordenadas do lugar onde se lêem os contos, sem pedir-lhes nada em troca, salvo seus rostos de curiosidade, terror, surpresa ou deleite... Mas, talvez, quando forem randes leitores se lembrarão de algum conto inesquecível que os marcou para sempre, ou de uma voz que dizia:
“Era uma vez, em um país muito distante...”.
E ninguém estará lá para lhes premiar, nem lhes dar uma medalha ao mérito, nem tampouco atestar um milagre. Mas assim é como vão se fazendo os leitores: corpo a corpo; corpo e alma, num quarto ou numa sala de aula. Conto a conto. E um por um.
Rapunzel
Rapunzel, por Anne Anderson (1874-1930)


* Texto adaptado de conferência para professores em Bogotá, 2004.